6. MEDICINA E BEM-ESTAR 12.9.12

DNA CONSIDERADO LIXO  VITAL PARA O NOSSO CORPO

Em um passo histrico da cincia, 30 pesquisas revelam que, ao contrrio do que se pensava, mais de 90% do material gentico tem importncia fundamental para o funcionamento do organismo humano
 Rachel Costa

Lixo. Foi esse o nome dado  maior parte do que se encontrou no material gentico humano h 11 anos, quando cientistas conseguiram decodificar pela primeira vez o que nele estava escrito. Isso porque se descobriu que uma parte nfima do DNA, inferior a 2%, possua genes capazes de coordenar a codificao de protenas, consideradas o carro-chefe do funcionamento celular. Como apenas uma pequena parte seria capaz de fazer esse trabalho, considerou-se que o restante seria lixo, disse Eric Green, diretor do Instituto Nacional de Pesquisa sobre o Genoma. Uma parcela grande dos pesquisadores, claro, duvidou dessa viso, pois no haveria sentido em tanto material gentico sem funo no nosso organismo. Por isso prosseguiram-se os estudos para conhecer melhor o que seria o tal DNA-lixo. Agora sabemos que essa primeira concluso est errada. A maior parte do genoma est envolvida em uma complexa coreografia molecular responsvel por converter informao gentica em clulas vivas, completa Green.
 
Essa  a concluso mais importante, divulgada na ltima semana, de 30 estudos realizados por 440 pesquisadores de 32 laboratrios de nove pases. De acordo com a nova investigao, o que se descobriu  que, embora o restante do genoma humano no seja capaz de codificar a produo de protenas, ele tem influncia direta sobre o modo como elas atuam no organismo. Isso porque age como controlador, ligando ou desligando os genes. E no apenas:  ainda capaz de fazer o mesmo gene produzir protenas diferentes. Por exemplo, apesar de todas as clulas do corpo terem o gene que codifica a produo de insulina  o hormnio que abre a porta das clulas para a entrada da glicose que est no sangue , sua ativao se d apenas no pncreas. O moderador desse processo, acredita-se agora, est nessa outra parte do DNA. Com a descoberta, o que antes era lixo, ganha agora importante status cientfico, em especial porque o funcionamento dessas sequncias de DNA que se encontram fora dos genes pode estar relacionado ao surgimento de vrias doenas, em especial o cncer.

SHOW - Aps anncio, os cientistas Ewan Briney ( dir.), Tim Hubbard (ao centro) e Roderic Guigo posaram com "danarinas do DNA"
 
Para se chegar s novas descobertas, foi preciso tempo e dinheiro. O Encode, sigla em ingls para Enciclopdia dos Elementos do DNA, surgiu em 2003 e, desde ento, consumiu US$ 185 milhes. O recurso veio do Instituto Nacional de Pesquisas do Genoma Humano, nos Estados Unidos. Um dos principais nomes do projeto foi o professor de cincias da computao William Noble, responsvel por desenvolver o programa de inteligncia artificial que permitiu analisar e armazenar a informao contida no genoma humano para construir o que os prprios cientistas compararam ao Google Mapas do DNA. Enquanto o primeiro trabalho, em 2000, seria uma foto da terra no espao, o material produzido pelo Encode, assim como o software de geolocalizao, seria agora capaz de fornecer detalhes sobre essa imagem. Se no Google Mapas  possvel ver cidades, estados, ruas e at mesmo informaes sobre o trfico, pelo Encode podemos ver o funcionamento de cromossomos, genes e outros elementos funcionais, diz Elise Feingold, uma das pesquisadoras do projeto.
 
A divulgao dos dados foi comemorada pelos pesquisadores ao redor do mundo. O pblico em geral vai sentir o impacto desse estudo quando ns, cientistas, usando esses dados, aprendermos mais sobre o funcionamento do corpo humano, explica a geneticista Lygia da Veiga Pereira, do Departamento de Gentica e Biologia Evolutiva da Universidade de So Paulo. Conhecendo essa outra frao importante do nosso genoma, poderemos entender quais so as doenas causadas por falhas que ocorrem nessa parte do material gentico, disse a pesquisadora.
 
Como se v, essa maior carga de informao permitir conhecer, de forma indita e muito mais profunda, como se originam as enfermidades no corpo humano. E, pelo que se viu, isso se d de forma muito mais complexa do se imaginava. As informaes serviro de base para o desenvolvimento de novas terapias buscando a cura de enfermidades para as quais hoje no h tratamento.
